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do abandono e modos de sobrevivência

  • 24 de out. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 12 de mai.

Acordou com a sensação de que algo seria diferente, sem saber se bom ou ruim.


Parecia mais um incômodo. Coisa chata. Naquela altura da vida, as mudanças, ainda que pequenas, exigiam um esforço que já não estava mais disposto a despender.


Olhou ao redor. Não viu nada fora de lugar. Na cabeceira, o relógio estimado.


Pelo lado de dentro a neve não parecia tão inóspita. O branco o acalmava. Trazia a lembrança da mãe que deixava a luz do corredor acesa. As horas diurnas eram sempre mais gentis. Não questionavam seus medos.


Preenchia a rotina como aposentado que vive só. Ligava a tv no canal do tempo, depois no jornal local. Lavava a louça do dia anterior, tomava café com croissant. Seguia o dia, ritualístico, seguro nas repetições programadas. Horas, minutos.


Às dezoito, a melhor hora, agarrava-se ao andador, fechava a porta e descia pelo elevador. No hall do prédio passava pelo porteiro e checava o correio. Os folhetos de promoções e panfletos políticos lhe asseguravam a importância dos destinatários. Colocava tudo na mochila para ler enquanto estivesse comendo o peixe com fritas do pub ao lado.


Caminhava com a dificuldade das pernas doentes, mas o percurso era ligeiro. Na saída apertava o botão para deficientes e a porta se abria. Não se incomodava com os minutos a mais gastos na tarefa banal de caminhar trinta passos pelo passeio.


Se tempo não era problema, transtorno era a porta do pub: não tinha botão amigável.


Também não eram amigáveis os que frequentavam o local. Acostumado às crueldades que sua condição lhe impunha, aguardava paciente pelo primeiro que entrasse ou saísse.


Passado o momento tenso, procurava pela mesa habitual do canto, que lhe dava uma boa visão da tv. A programação esportiva cuidava para que tivesse as horas mais intensas e divertidas. Mantinha o que supunha ser diálogo com comentaristas de Hockey do outro lado da tela.


Nos dias de jogos do Oilers, descia com a camisa 99, laranja e azul, exibindo o autógrafo de Wayne Gretzky. A empolgação o levava a imaginar que deslizava, enlouquecido, com patins na quadra de gelo.


Ensaiava respostas para condoídos: — O pensamento me basta.


Quando algum desavisado se sentava na cadeira cativa, ajeitava-se num banquinho ao lado, e por lá ficava até que o percebessem. Não raro sua existência era completamente ignorada, como moscas que, à beira da morte, sequer são percebidas, porque tampouco incomodam. Apropriava-se do balcão de apoio dos garçons, que não reclamavam. Por ali comia e bebia duas Lone Wolf.


Naquele fim de tarde, o movimento era habitual e a mesa de sempre o aguardava. Alívio. A sensação esquisita pela manhã talvez fosse mais uma dessas bobagens que vêm do nada e passam do mesmo jeito.


Não foi preciso solicitar o cardápio. A garçonete, ao vê-lo, fez a comanda de costume.


Na tv, uma partida de Curling o lembrava de suas raízes escocesas. Gostava de ver a física do atrito aplicada num esporte nada comum.


Passavam-se horas. Aqui e ali checava o relógio. Vez ou outra trocava a tv pelo cenário local.


Naquela noite, como em várias outras, os homens de meia-idade gargalhavam alto e trocavam grosserias típicas. Naquele teatro não lhe cabia outro papel senão o de espectador.


No início havia o ressentimento. Com os anos, virou reflexo involuntário do riso que acompanha outro, mesmo desconhecendo o teor da prosa. Ignorado, voltava-se para a conversa fluida dos comentaristas esportivos.


Na relação privada dos seus olhos e cenas da tv, não percebera que aquele era realmente um dia atípico. Os garçons se tornaram agitados e pouco atentos. Um deles deixou que um copo de cerveja caísse em suas costas. Desculpou-se sem lhe dar assistência.


Pequenos transtornos e variações na rotina assumiam proporções desconcertantes. Irritado, fez o que parecia óbvio: dirigiu-se ao sanitário para recompor o que fosse possível.


Caminhou em seu tempo.


Absorto pelo imprevisto, não percebera os avisos de fechamento nos minutos seguintes.


Sozinho no banheiro, por lá ficara até que a camisa estivesse minimamente limpa, valendo-se do secador automático de mãos.


Ao sair, veio o susto. Estava tudo escuro e quieto.


No hábito, buscou o relógio, que não fez sentido.


A pressão se descontrolou com a lembrança de similares vividos. Bullies, os primos apagavam as luzes e diziam que a morte viria pegá-lo.


No percurso de volta, esbarrou em cadeiras esparramadas pelo caminho. Escutou o relógio cair. Com o amuleto perdido, veio o desamparo. Com o escuro, o pavor.


Mas foi o abandono que impôs um amargor bizarro, uma mistura de tristeza, medo e indignação. Brincadeira de mau gosto como memórias ruins da infância.


Sem as horas, cheio de tempo, acomodou-se e aguardou. Talvez desistissem da piada.


Sentiu-se inexistente como nos anos após a morte de sua mãe. Tentou se lembrar das palavras de conforto, mas o tempo se encarregara de embaralhar as lembranças e, não fosse a foto desbotada que mantinha na carteira, o rosto também teria se desfeito.


No silêncio, os olhos choraram secos.


Num momento da noite qualquer, pensou ter escutado um chamado. Abriu os olhos.


Surpreso, avistou o que parecia ser sua mãe, mas não tinha certeza. Ela lhe estendeu uma das mãos. Na outra, o relógio.


Pela manhã bem cedo alguém se aproxima: — Senhor... senhor... senhor... senhor...



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