Nunca entenderei o amor como um incômodo. Amor pra mim é solução, é alimento...eu vivo para amar...então eu o busco, sempre, e todo dia. A estrada é minha morada e o destino são as portas daqueles que se abrem para o amor. Reclusos não encontram ninguém, mas desejam ser achados, e quando são achados, se recusam a ter alguém que os ame de verdade, simplesmente porque amar dá muito, mas muito trabalho...e quem não quer incômodo de fato não deveria sequer falar de amor, porque esse não foi feito para quem não deseja perder noites de sono pelo outro.

Sabe, o passado e o futuro são dois cretinos. O primeiro se aproveita da nossa memória seletiva e o segundo da nossa imaginação fugitiva. Como o presente pode se sobrepor a dois oponentes assim? Há que se ter o esforço para viver o presente por si só! Suicidas estão sempre presos nessa batalha entre os três.

o problema é que vida normal me entedia e vida louca não sustento...

o mesmo pra pessoas...parando aqui pra pensar se existe uma terceira alternativa

Me chamo Iara. Um dia me disseram que era rainha das águas, mas sou apenas uma arquiteta que precisa escrever...

Essa casa fala de mim, e por mim. 

Resume o ser humano no qual me tornei em cinquenta anos que passei rascunhando vida.

Relata percepções sobre mim mesma, sobre pessoas, relações e vivências.

São desabafos, insinuações, provocações, constatações, relatos em forma de poemas, cartas, textos, frases. O amor imenso que sinto pela vida e minha real vontade de continuar vivendo, somados à consciência da minha idade, me impeliram a externar, pela escrita, a fotografia daquilo que hoje chamo de meu renascimento. Aqui eu passo a limpo os momentos que moldaram esse ser que aprendi a aceitar, respeitar, conviver, tolerar e amar. Sobretudo celebra o primeiro ano dos próximos que, penso, serão os melhores da minha vida. Olho para o passado com carinho, para meu presente com alegria e para meu futuro com excitamento! Sou naturalmente uma otimista desprovida da tecla “undo”...

A literatura tem sido para mim um processo terapêutico, essencialmente organizador.

Ela dá sentido à minha mente, sintetiza meus pensamentos, formata sentimentos, planos, palavras.

Enquanto meus escritos eram apenas uma expressão privada, resumiam-se num processo solitário e de autoconhecimento. Ao torna-los públicos, perdi absolutamente o controle sobre meu verbo. Mas a possibilidade de que esse pudesse ter significado e relevância para quem o lesse traria ainda mais sentido para o que escrevo. Entendo a arte como pura expressão do subjetivo, mas percebo-a assumindo um papel essencialmente coletivo, tornando-se potencialmente transformadora para quem se dispõe a observá-la e apreciá-la. É com prazer que te recebo em minha casa e te ofereço meus escritos.

Eu os dedico a você, pai, mãe, irmão, filho, filha, família, professor, aluno, chefe e funcionário, amigo e desafeto, marido, amante, pessoa importante, outra nem tanto...você construiu comigo, mesmo sem saber, meu retrato falado!

Qualquer um pode escrever sobre o amor, porque a escrita pode ser um arranjo interessante de palavras quando se tem educação literária. Pode ser um arranjo que até toca as pessoas, sem sequer ter significado para o autor, sendo apenas isso...um arranjo de palavras para os outros, nunca para si mesmo. É como tocar um instrumento sem sentir a música, quando todos dançam e têm seus pelos arrepiados, menos você...é como ler sem viver a interpretação, onde todos se emocionam com suas pausas e respirações ensaiadas, mas o choro nunca irá interrompê-lo. É como ver sem perceber o outro. É como falar de filhos sem nunca tê-los tido. É como fazer criações de roupas que nunca serão usadas por pessoas reais ou fazer um projeto arquitetônico arrojado se esquecendo de que arquitetura foi feita para...humanos. Habilidades técnicas serão sempre apenas isso. Escrever para si mesmo requer a experiência daquilo que se vive. Requer paixão pelo que se fala. E paixão não é para qualquer um. Sem paixão e sua disposição aos sentimentos que vêm junto, os textos de amor podem até conter beleza, mas são desprovidos de auto cura. Bons observadores são capazes de falar sobre qualquer coisa, inclusive sobre o amor que não sentem. Bons observadores costumam se transformar em bons escritores. Arranjam palavras para os outros que normalmente funcionam...para os outros, apenas. Escrever para si mesmo, algo a ver com confissão de vida, exige a vivência para que possa ter efeito curativo sobre quem escreve. Se escreve e acha que não precisa de cura, sem problemas...palavras ao vento também são bem-vindas!

 Meninas usam sapatos vermelhos.

Meninas são curiosas.

Meninas buscam.

Meninas creem.

Meninas erram.

Meninas são cheias de vida. 

 

Existem os que se bastam, e os que nunca se bastarão sozinhos. Eu adoro estar sozinha em determinados momentos, mas é como aquela criança que sai pra brincar no tanque de areia, feliz da vida, sozinha, mas volta e meia precisa olhar pro seu "cuidador" e ver que ele está ali de olho. Sentir-me amada é o que me faz ter meus melhores momentos sozinha. Eu nunca serei una, pois que nunca me bastei. E acho pouco provável que isso aconteça. Aos que se bastam, minha admiração! Suponho que isso deva ser algo espiritualmente mais elevado que minha situação absolutamente rasteira.

Que seu amor seja como a flor selvagem, mas se não puder, que seja como vier, mas não deixe o amor de lado, porque é no amor que se encontra a vida. Se uma vida de amor já não lhe apraz, cale-se. A morte precisa de silêncio.

Sapatilhas vermelhas são fáceis de gostar...mas a habilidade de perceber a beleza dos pés machucados e desformes e entender que são eles que sustentam a sapatilha...bom...isso realmente é para poucos. É preciso ser muito humano para tal...e a realidade de ser um humano anda sendo desprezada. Alguns preferem fechar seus olhos, outros em manter distância mesmo.

CUIDADO! CÃO FEROZ APARENTEMENTE

MORTO NA BEIRA DA ESTRADA. 

AQUELES QUE TENTARAM CHUTAR

SUA CABEÇA TIVERAM SEUS CALCANHARES  

MORDIDOS COM SALIVA INFECTADA!                                              

Sempre acho as coisas mais interessantes quando chega a madrugada...não tem jeito. A noite tem algo de especial mesmo. Sobre a sensibilidade do que li e vi aqui, me vi um pouco no seu texto, poema e foto. Sobre caminhos, já tive vontade de voltar atrás e não ter percorrido alguns deles. Algumas vezes deixo que me levem com preguiça de pensar, fecho os olhos e vou no fluxo...aí me lembro que sempre esqueço de colocar aquelas linhas que deveriam me guiar de volta nos labirintos quando minha cara enfim batesse numa daquelas paredes que não levam a lugar algum. Minha memória nunca contribuiu muito. Então suponho que retorno é algo pouco provável para mim, e como sempre estou perdida mesmo, sigo adiante. E no adiante sempre tem aquelas coisas legais que te distraem no percurso...sempre aparece uma flor, uma plantinha, coelhos, uma maritaca, nuvens com caras de coisas. Eu acabei de ler a carta do jovem que se matou. Senti vontade de dizer a ele que vale o caminho, embora coisas aconteçam para te dizer o contrário. Eu poderia tê-lo ajudado na passagem do ano...tava aqui, de bobeira. A vida está sempre por um triz e lembrar disso é muito ruim.

A vida nem deixa a gente aprender tudo para que ela continue em nosso querer

TO WHOM IT MAY CONCERN...Eu decidi ser mãe, você o filho. Não vejo problema com sua escolha, mas porque você veria com a minha? De fato, minhas botas não pisaram os solos de tantos países, mas meus ouvidos foram conduzidos em ondas sonoras e por lá bailei as mesmas valsas...Rodopiei ao lado de Zaz “Sous le ciel de Paris”, descobri com Ojos de Brujo que “No necessito tener alas pa volar”, em outros aires, pelas mãos apaixonadas de bandoneons, “Vuelvo al sur, como se vuelve siempre al amor”... Mas foram nas terras de Istambul que conheci o mais encantador dos amantes, “Nazende Sevgilim”, o homem de face ainda não revelada que tocaria meus cabelos com rosas de primavera. Sim, foram inúmeras viagens em sonhos musicais enquanto criava meus filhos. Não desdenho suas uvas, ao contrário, fecho meus olhos e tento saboreá-las todas ao ler e ouvir suas histórias. Sua vida é repleta de encantamentos, videiras saudáveis, de folhas e frutos brilhantes, dignos dos mais valiosos “Chianti” da Toscana... Mas enaltecer sua vida não significa diminuir a minha...escolhi cada pedacinho dos meus caminhos, mesmo que de forma estabanada ou juvenil, foram escolhas minhas, e que moldaram a mulher que hoje lhe escreve essas palavras. E hoje eu gosto dessa mulher. Sabe, percebo a dificuldade dos homens em entender escolhas distintas às suas. Nada parece fazer sentido. É que a natureza masculina simplesmente desconhece total empatia. O que é, de certa forma, desejável. Afinal um mundo absolutamente feminino seria um total absurdo. Mas um mundo sem a devoção feminina, em especial, mulheres mães, seria um total desastre. Entre o absurdo e o desastre, fiquemos com um mundo de homens e mulheres. É realmente quase impossível saber o que é empatia quando não se sabe o que é dividir literalmente o mesmo ponto no universo com outro ser. Quando a gente divide nosso corpo com uma criança, bem aqui dentro da nossa barriga, a gente consegue sentir algo parecido, meio carne da nossa carne, dor que dói na gente...difícil explicar. Talvez sua mãe consiga lhe explicar melhor com seus afagos quando você estiver triste. Sim...mães sabem como... Mas mães também deveriam saber que essa ocupação não poderia ser eterna...como você bem sabe, coisas eternas engessam, limitam, entorpecem...as cordas que unem mães a seus filhos precisam ser cortadas, simplesmente porque somos seres únicos. E existe o momento de cortar as cordas. Eu sou única, assim como meus dois filhos. Somos hoje uma família de três indivíduos que ocupam três espaços distintos, cada um com sua história para um dia contar. Algumas mães se esquecem que as cordas precisam ser cortadas. Alguns filhos se recusam a cortar as cordas. Mas a vida está aí para eventualmente lembra-los... Ando rascunhando vida, mas pretendo passa-la a limpo, e nessa hora, quem sabe meus caminhos me levem de fato a tocar com as mãos a temperatura das poeiras de cada aeroporto imaginário que frequentei... Pouco? Patético? Bom, penso que para quem nasce com pelo menos cinco sentidos e deles pode usufruir com total intensidade como faço, eu vivo minha vida como poucos o fazem! Sim, eu me chamo Iara, e sou uma mulher mãe.

SOBRE RELAÇÕES E HOMENS: sou uma mulher confusa e com pensamentos bagunçados. Fui educada pela minha mãe a não depender dos homens, então sempre tive dificuldades em aceitar provedores. Mas com o passar do tempo e por mim mesma, aprendi a aceitar aquilo que por ventura quisessem me dar, não totalmente sem culpa ou vergonha. Entendi tardiamente que adoro ser presenteada, mas sobrevivi e ainda vivo muito bem sem esses mimos. Também com minha mãe aprendi a valorizar a força do meu trabalho, a costurar e cozinhar o suficiente para matar a fome ou para fazer um agrado. Em meus casamentos aprendi que não sou uma boa coordenadora do lar e nas terapias subsequentes aprendi a ligar o foda-se! Meu sono é mais sagrado do que uma pia brilhando e cheirando a água sanitária! Com meu pai coloquei em minha vida o futebol, o uísque, a lua e a noite, a adoração pelas pessoas, o amor pela arte, a qualidade musical e a apreciação pelo silêncio e pela solidão. Entendi a lição de resiliência e me portei muitas vezes como Phoenix, renascendo das cinzas a cada abate. Com os budistas aprendi que preciso do 5S mais frequente em minha vida, mas comigo mesma entendi que a frequência da faxina sou eu quem determino!  Minha geração assistia a filmes de Walt Disney - que Deus abençoe a todos os seus clones - filmes os quais continuam passando no netflix e insistindo no tal do amor eterno e verdadeiro, aquele mesmo amor que o padre diz que só Deus separa...mas eis que meu mapa astral com sol em Capricórnio vive desmentindo esse padre! Esse mesmo mapa traz minhas loucuras de ascendência sagitariana e minha lua em leão...ou seja, impossível viver sem os homens! Eu sei que essa confusão toda empolga mas também assusta...fácil de desejar mas difícil de assumir ou conviver. Isso vale, em especial, para os homens educados no nosso meio ainda predominantemente machista, onde se tem "las mamas" como as grandes mantenedoras dessa cultura.

CARO JABOR, renovação e reinvenção de um mesmo ser é coisa da qual tenho cá minhas cismas se realmente existe! Se for o caso, aqueles que o conseguem, não sabem de fato como conseguiram, apenas o fazem. Para nós, humanos da espécie “merus relis mortalis”, o problema não é ficar casado, mas manter-se fiel por tanto tempo! Banalizando aqui a fidelidade apenas no que tange ao sexo, e acreditando que o “ser infiel” para alguns não afeta em nada, seus casamentos duram séculos! E lá pelas tantas, quando sexo já não está no topo das importâncias, olham para seus cônjuges sorridentes e orgulhosos, vangloriando-se do feito feliz de tantos anos... Esse sorriso amarelo e discurso de contentamento normalmente vem do homem infiel tranquilo ou da mulher traída consciente e aliviada por já não ter que, digamos de forma singela, “se doar” para o marido! Mas olha, além do motivo acima, divórcios também acontecem quando descobrimos que fizemos escolhas mal feitas, quem sabe adequadas para um momento, mas inadequadas para uma vida...além obviamente pela insistência na fidelidade enquanto dure ou pelo espírito intranquilo e irrequieto daqueles que entendem que ninguém é de ninguém. Casamento e sua consequente monogamia religiosa são invenções da sociedade para colocar uma certa ordem. O que é bem válido. Divórcio é consequência dos que têm dificuldade de adequação a essas invenções. Apenas isto, nada mais.

ONDE MORA MINHA VOZ...Muitas vezes senti que minha intuição sobre algo se ausentava toda vez que eu tentava entender mais sobre esse algo... Era como se a cada leitura, a cada passo para o conhecimento, mais distante eu ficava daquilo que guiava minhas atitudes até então... Ao ponto de muitas vezes eu me recusar a aprender alguma coisa com receio de não conseguir mais escutar a minha voz interior, minha intuição, a qual sempre identifiquei como minha única e genuína voz. Era como se o que eu aprendesse e lesse, que certamente não era de minha autoria, não me representasse como um indivíduo único...afinal, não era eu, eu. Era o eu após o eu do outro. Andei arremessando alguns livros. A ânsia por aquilo que deve ser, por aquilo que me coloca num local mais digno do que a ignorância, também me trazia o desconforto da falta de identidade. Mas aí me veio à cabeça que o problema não estava na busca pelo conhecimento, mas na forma como eu estava tentando adquiri-lo. Percebi que sempre que a intenção era pretensiosa de sabedoria, eu me perdia. Se o conhecimento fosse adquirido de forma gratuita, despreocupada, ele se somava àquilo que lá dentro chamo de minha voz. E essa vem sem se lembrar de onde busca suas verdades. Acho que é isso.

NA POLÍTICA, UMA ZEBRA DO AVESSO...Entendendo que o que nos difere dos rebanhos de zebras vem da nossa natureza criativa e sobretudo angustiada, a qual procura incessantemente pelo pingo no i que nos tornaria mais especial do que aquele que enxergamos ao lado, é natural que tudo aquilo que nos limita ou reprime nossa catarse algum dia não nos convencerá mais! Assim vejo o comunismo, como a tal pele preta no branco que insistem em nos vestir, em nos tornar iguais, zebras de um mesmo rebanho...algo meio parecido com as religiões que vem para nos acalmar e tornar nossas almas adestradas...Sim, válidas para um conforto temporário, mas insuficientes para uma vida plena! Eu não sou uma zebra, ou talvez seja uma zebra do avesso. Não quero seguir um rebanho, posso no máximo admitir sua existência. Se essa explicação não lhe bastar, por favor, procure Ferreira Gullar.