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  • Iara

entre dúvidas e anjos

Naquele dia a dúvida se apresentou mais nociva, mais sentida, ainda assim de forma privada e silenciosa. Já lhe aparecera algumas vezes. Talvez nunca a tivesse abandonado. Escondia-se naquela caixa de cartas nunca entregues.


Acompanhada, a música não mais lhe bastou, precisou olhar pela janela. Ali, o pequeno jardim com o mato que crescia despercebido era envolto pelo muro marrom que lhe privava dos olhares incomodados.


O luar confundido pela luz incandescente não lhe trouxe o conforto que pedia. Marcava os contornos da presença indesejada.


E nessa angústia mista com tristeza, saiu-lhe do peito um murmúrio àquele que recorria em seus momentos mais perturbados...


-Me diz, me mostra...

Em meio ao monólogo em tom de apelo, ela se virou para o salão repleto de corpos presentes, quando percebeu o jovem que conduzia a companheira a um minuto de ausência.


E foi apenas esse minuto o infinito suficiente capaz de trazer o jovem a seu encontro, que, sem sequer lhe perguntar o nome, lhe propôs uma troca frenética de confidências, preenchendo espaços e lhe trazendo o anseio pelo desconhecido.


Havia a aflição de quem sabia que nesse minuto não caberiam tantas palavras que lhes justificassem um futuro. Ao findar desse momento ansioso, mas mágico, admirados pela estranha empatia, seus olhares se despediram ainda famintos, mas conformados. Ele se foi com a companheira que lhe reivindicara, ela retornou ao que parecia ser sua vida.


Dirigiu-se então à companhia por ora esquecida, percebendo que já não mais se encontrava. E nessa ausência entendeu que poucas vezes se sentira tão feliz por estar só, e por dentro ela sorriu alto, muito alto.


Não se tem notícia se tamanha felicidade foi testemunhada. Intimamente ela sabia que talvez a dúvida, até então companheira, retornasse. Mas esse pensamento, agora diminuído, já não lhe perturbava mais os sentidos, e pensou que talvez, por fim, estivera certa o tempo todo...


-Sim, anjos existem...ela pensou.

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