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  • Iara

do abandono e modos de sobrevivência

(Inspirado em um ser humano real)


Acordou naquele dia com a sensação de que algo seria diferente, sentiu um desconforto chato. Naquela altura de sua vida, as mudanças, ainda que pequenas, exigiam um esforço que já não estava mais disposto a despender.


Olhou ao redor, mas tudo parecia estar em seu lugar. Pelo lado de dentro, a neve não parecia tão inóspita. A claridade dos brancos lhe acalmava. Trazia a lembrança da mãe, que deixava a luz do corredor acesa para que não sentisse medo. As horas diurnas eram sempre mais gentis.


Preenchia o dia com a rotina do aposentado que vive sozinho. Ligava a TV no canal do tempo, depois no jornal local. Lavava as louças do dia anterior, e tomava o café com croissant de queijo.


E assim se passava o dia, enquanto aguardava ansioso pela melhor parte, o fim da tarde, quando então descia para o pub ao lado. O ritual era o mesmo. Repetir os dias fazia com que se sentisse seguro.


Às dezoito se agarrava ao andador, fechava a porta de entrada e descia pelo elevador. No hall do prédio passava pelo concierge (1), normalmente entorpecido pelo celular. Checava o correio. Os folhetos de promoções e panfletos políticos lhe davam a sensação da importância merecida. Colocava tudo em sua mochila para ler enquanto estivesse comendo a pizza de pepperoni.


Caminhava com a dificuldade das pernas adoecidas, mas o percurso era ligeiro. Na saída apertava o botão para deficientes e a porta se abria sem maiores problemas. Não se incomodava com os minutos a mais que precisava para executar a tarefa banal de caminhar trinta passos pelo passeio. Tempo nunca fora problema. O transtorno era mesmo a entrada do pub. A porta não tinha o tal botão amigável, tampouco eram amigáveis os que frequentavam o local. Acostumado às crueldades que sua condição lhe impunha, aguardava paciente pelo primeiro que entrasse ou saísse. Certa vez se desiquilibrou e quase caiu quando, numa dessas oportunidades, não conseguiu evitar que a porta batesse em seu andador.

Passado o momento fisicamente mais tenso, procurava pela mesma mesa no canto que lhe dava uma boa visão da TV. A programação esportiva cuidava para que tivesse as horas mais intensas e divertidas. Mantinha longos diálogos com comentaristas de Hockey (2) do outro lado da tela. Sim, para ele eram diálogos. Jamais pensara que estivesse falando sozinho. Sentia a troca, e isso bastava. Nos dias de jogos do Oilers (3), descia com a camisa 99, laranja e azul marinho, exibindo com orgulho o autógrafo de Wayne Gretzky (4). A empolgação o levava a imaginar que estava deslizando enlouquecido com seus patins na quadra de gelo. O pensamento era seu maior aliado. Nele não existiam amarras, nem limitações. Tudo era possível, libertador.


Quando algum desavisado se sentava em sua cadeira cativa, ajeitava-se no banquinho ao lado, e por lá ficava até que o percebessem. Não raro, sua existência era completamente ignorada, feito aquelas moscas que, à beira de morrer, sequer são percebidas, porque tampouco incomodam. Quando isso acontecia, apropriava-se do balcão de apoio dos garçons, que também não reclamavam. Por ali comia a pizza e bebia duas Lone Wolf (5).


Por sorte, naquela tarde, o movimento era o habitual e a mesa de sempre o aguardava. Nada parecia diferente e sentiu-se aliviado. A sensação esquisita pela manhã talvez fosse mais uma dessas bobagens que vêm do nada, e passam do mesmo jeito.


Não foi preciso solicitar o cardápio, a garçonete, ao vê-lo, já fez a comanda para o pedido de todo dia, pizza com cerveja. Na TV, uma partida de Curling (6) o lembrava de suas raízes escocesas. Gostava de ver a física do atrito aplicada num esporte tão raro e inusitado.


Passavam-se as horas e vez ou outra trocava a TV pelo cenário local. Nesse dia, como em vários outros, as poucas pessoas, em sua maioria homens de meia idade, gargalhavam alto e trocavam grosserias típicas. No teatro que ali encenavam, não lhe cabia outro papel senão o de expectador. No início havia o ressentimento, que, com os anos, foi sendo trocado pelo reflexo involuntário do riso que acompanha outro, mesmo desconhecendo o teor da piada ou conversa. Mas essa relação de uma via não se sustentava por muito tempo, fatalmente se voltava para seus verdadeiros companheiros, os comentaristas esportivos. Com eles a conversa fluía.


Nessa relação privada entre seus olhos e as cenas da televisão, não percebera que aquele era um dia atípico. Os garçons estavam agitados e pouco atentos. Na pressa do atendimento, um deles, acidentalmente, deixou que um copo de cerveja caísse em suas costas. Desculpou-se sem olhá-lo, e se retirou sem lhe dar assistência.


Definitivamente nada daquilo havia sido previsto. Os pequenos transtornos e variações na rotina assumiam uma proporção demasiadamente desconcertante. Então fez o que parecia ser o óbvio, dirigiu-se ao sanitário para recompor o que fosse possível. Caminhou em seu tempo, contrastando com a agitação que se instalara. Absorto em sua preocupação do momento, não percebera os avisos de fechamento nos próximos minutos. Sozinho no banheiro, por lá ficou até que sua camisa estivesse minimamente limpa e seca, valendo-se do secador automático de mãos.


Saindo veio o susto. Estava tudo escuro. O bar estava fechado e não havia mais ninguém por ali. Seu coração disparou e imediatamente veio a lembrança assustadora das noites que passara na casa dos primos, quando ainda era bem pequeno. Para assustá-lo, apagavam todas as luzes e diziam que a morte viria pegá-lo.


No percurso de volta até sua mesa, ainda esbarrou em cadeiras que estavam esparramadas pelo caminho. Entristeceu-se numa mistura de medo e abandono. Questionou indignado como poderiam tê-lo fechado ali. Pensou que talvez fosse uma brincadeira como as que faziam seus primos no passado.


Acomodou-se e aguardou pacientemente, esperançoso de que desistissem da piada de mau gosto.


Passaram-se minutos, depois horas. Mas ele tinha tempo. Desejou que não o tivesse. Sentiu-se inexistente como nos anos após a morte de sua mãe. Chorou em silêncio com olhos secos e cabeça baixa. Tentou se lembrar das palavras doces que falava para confortá-lo. Mas o tempo se encarregara de embaralhar as lembranças e, não fosse a foto antiga que mantinha na carteira, talvez o rosto também teria se apagado.


Num momento qualquer da noite, sentado naquele abandono, pensou ter escutado um chamado. Abriu os olhos e surpreso avistou a mãe que lhe estendia a mão: - Vem, meu filho!


Pela manhã bem cedo alguém se aproxima. Era a faxineira que, insistente, lhe chama:


- Senhor...senhor...



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(1) Concierge - Termo da língua francesa e que pode ser traduzido como “porteiro” .Entre as principais funções do concierge está o controle de entrada e saída de moradores em condomínios e hóspedes em hotéis.

(2) Hockey - esporte olímpico jogado num rinque de patinação entre duas equipes de seis jogadores - onde todos os jogadores e juízes calçam patins sobre o gelo. Os jogadores patinam no gelo e usam tacos para movimentar um disco de borracha. O objetivo do jogo é fazer com que o disco seja colocado na baliza do adversário. O hóquei no gelo surgiu no Canadá, onde é o esporte nacional do país.

(3) Oilers - O Edmonton Oilers é uma equipe profissional de hóquei no gelo baseada em Edmonton, Alberta, Canadá

(4) Wayne Gretzky – Jogador canadense profissional de hóquei sobre o gelo. Seu apelido é "O Grande" (The Great One), e é considerado por muitos como o melhor jogador de hóquei da história.[1]. O número de seu uniforme era 99. Jogou no Edmonton Oilers entre os anos de 1979 a 1988.

(5) Lone Wolf – Cerveja IPA com quatro maltes selecionados em combinação com quatro variedades clássicas de lúpulo e métodos tradicionais de cerveja consagrados pelo tempo, incluindo lúpulo seco, resultando em uma Golden Ale com sabor e complexidades excepcionais. Prêmio Alberta Beverage Awards em 2013.

(6) Curling - esporte olímpico coletivo praticado em uma pista de gelo cujo objetivo é lançar pedras de granito o mais próximo possível de um alvo, utilizando para isso a ajuda de varredores. O nome do esporte origina-se do verbo em inglês "to curl", que significa "curvar", e se deve ao fato de as pedras serem levemente giradas no ato do lançamento, descrevendo uma parábola em sua trajetória. Criado por volta do século XVI na Escócia, o esporte teve as primeiras regras elaboradas em 1838. Disseminado pelo mundo através de imigrantes escoceses, o curling é hoje em dia praticado principalmente no Canadá.

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