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  • Iara

a menina, o velho, a praça, os pombos

A vida parecia não lhe ser tão gentil,

Posto que não lhe ofertava a vez na dança.

E como seus dias se passavam assim, expectadora,

Sentava-se no meio fio de uma dessas praças qualquer,

De onde soam os ventos gélidos que lambem os cinzas dos pavimentos russos.

Ali os pombos de pescoços em passos de três tempos

Um, dois, três...um, dois, três...um, dois, três...

Valseiam à espera do Velho de pernas compridas,

Que lhes trazia sua porção diária de farelos.

E faminta, sabe-se lá do que,

Misturava-se às aves, como se bicho fosse,

Que com a presença perdiam o tom da dança,

Numa balbúrdia de asas e bicos abertos!

Foi quando num dia desses que acontecem,

O Velho chamou-a do alto de suas pernas,

Como num ato de caridade,

- ou talvez fossem seus sapatos vermelhos -

Levou-a, e em sua morada encheu-lhe o coração...

Contou-lhe histórias...

Alertou-a sobre seus não podes...

E então, deixando-a com os cantos da casa,

Partia e retornava,

Um, dois, três...um, dois, três...um, dois, três...

Partia e retornava, ao seu convir.

A Menina, como aqueles que fitam o portão,

Aguardava pelo abrir que lhe traria a comida dos preferidos.

E foi naquele dia que lhe trouxe o espelho,

Defrontou-se com seu reflexo de asas e penas,

Pois que então percebera... jamais fora Menina alguma...

Um, dois, três...um, dois, três...um, dois, três...um, dois, três...

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