Então me diz, meu amigo, aquilo que preciso ouvir...  sua palavra me alimenta ...

Rúbia Zanettini

amiga e poetiza

Se fizetes de mim tua morada
Que haveria eu de fazer?
Habitas aqui há tanto
Que de tanto negar
Cheguei a pensar
Desabitada estou.
Pobre de mim, que ilusão
Habitas há tanto
Que de tanto...
Tanto...
Que nem vi
Saiu e deixou um vão
Donde está a chave?
O que fizeste de mim?
Se foi! 
E sem mais... 
Voltou! 
Fizeste de mim tua morada​

flor selvagem

Joseph Agamol

amigo e poeta

Que teu amor seja como a flor selvagem,

Que brota à borda do precipício, audaz

A mirar no olho os desafios das veredas.

Ah, reveste-te da bravura da flor selvagem!

Que não põe reparo no risco do abismo, tão rente.

Que teu amor esteja a salvo como a flor selvagem

Que encontra guarida da tempestade na acolhida do penedo.

Ah, que teu amor seja o fio de prata da rocha cortante que mantém a salvo a flor selvagem!

E que teu amor seja Canadá no Inverno e Utah no verão, seta, sílex, obsidiana,

Que teu amor nasça olho de puma, dente de lobo e garra de falcão,

Mas que teu amor também seja sereno como a flor selvagem,

Que mira distante a correnteza logo abaixo de si, de si.

Ah, e por fim, eu também almejo para ti

Que teu amor guarde a beleza da flor selvagem

E a generosidade

E que este amor te receba em enlace e em beijo todas as madrugadas de tua vida.

morada

trecho de "um falcão peregrino"

Joseph Agamol

amigo e poeta

Por um momento, uma fração de nano-segundo em todas as esferas, pelo tempo em que uma crisálida se rompe ou um lobo emite a primeira nota de seu rosnado,

Nossos olhares se encontraram,

E eu, troca-peles, vi pela sua visão, lâmina acerada, e ele pela minha, gasta, e por uma fração o homem erigiu-se em falcão e o falcão desajeitou-se homem.

E tive diante de mim toda a terra e todo ar, e todas as criaturas viventes, e toda a amplidão, e essa sensação preencheu de alegria todo o meu dia.

pedra de roseta

Luciano Alves

amigo e poeta

Chegou lenta e mansamente
Convidou me a um chá de riso
Com perguntas melindrosas
Sem medir, 
Sem previsão...
Inventou uma morada
Expulsou a solidão,
frente à porta escancarada
disse sim 
e disse não. 
Os meus dias revelados
os maus dias passados.
Os planos de mim furtados.
Os sonhos que eu rejeitei.
E quando entrou fez barulho,
deixou de ser surreal.
O que se pensa intangível 
Hieróglifo mais legível
Pedra roseta fatal.
Passou de casa assombrada
a uma tarde ensolarada
pra brincar no meu quintal.
Criou suspense e ternura,
vontade de regressar
de onde nunca se veio 
pra nunca, 
nunca mais voltar!
Encheu-me 
e a mente em êxtase,
causou boa confusão.
Fez piadas
Teve queixas.
Revelou segredos seus,
de uma vida,
uma estrada,
um caminho que se fez,
uma busca,
uma caçada,
um apelo talvez,
uma súplica,
um prece,
um beijo,
um nó,
uma luz.
Refez a alma assolada
e à sua beleza fez jus.
Conduziu-me por caminhos 
por rios de águas claras.
Por trilhas belas noturnas
em Ilhas isoladas raras.
E eu ia arando a terra
qual camponês preparado,
deixando-me ser semeado 
nos sulcos da minha tez.
Tão longe de ser julgado.
Tão perto da embriaguez.
Foi tudo assim de repente
Como uma primeira vez...

Por um mundo com cigarras pra tocarem suas violas enquanto faço meu trabalho chato!! Amo música!!! 

Mário Feitosa

amigo e poeta

Se todos gastássemos a vida escrevendo, ninguém comeria...
Mas, se todos apenas plantássemos, ninguém teria o que ler.

Eu acho belíssima a relação de ajuda mútua que a diversidade humana promove.
Trata-se de uma harmonia inconsciente que emana de nossa própria animalidade.

Quando todos estão fazendo uma única coisa, brotam demandas de outras coisas, seja abrigo, roupas, música, bebidas, comida, veículos, monitoramento dos pequenos, cuidados dos idosos, a própria medicina, a pintura, vigília, audição...

Compreendo o gigantismo humano sendo justamente a capacidade de compreender as demandas, mesmo "não essenciais", digamos assim, sanando com os talentos.

Num belo dia, num mundo incrivelmente assassino e cruel, repleto de feras gigantescas, escasso em alimento e abrigo, alguém resolveu sentar-se, encarando uma parede, e desenhar... Desenhou pessoas, animais, plantas, o nascer do sol, as estrelas. Que de útil havia naquela porcaria de parede de caverna rabiscada?! Quanto tempo empregou esta pessoa naquilo, e quanto lhe atrasou na coleta dos alimentos, na proteção contra os monstros, na preparação para a nova migração?

Não é maravilhoso pensar quanto o "inútil" é indispensável à nossa natureza? Digo, você consegue viver quantos dias sem música? Quantos dias sem uma história fantástica, seja escrita num livro, seja encenada, tanto no teatro quanto no Cinema?
É possível viver numa casa de paredes brancas e lisas por quanto tempo?
O que te tira o ar, ao entrar num ambiente magicamente decorado?!

Ainda além: que muda na sua vida saber que as órbitas dos planetas são elípticas? Que interessa que a soma dos quadrados dos catetos de um triângulo retângulo equivalem ao quadrado de sua hipotenusa? Quantos reais por mês você ganha por saber que existe uma formação matematicamente perfeita nas construções dos antigos gregos, a tal "proporção áurea", que molda as conchas do mar?

A beleza do "inútil", do ponto de vista pragmático, indispensável pelo berro desesperado de nossa mais pura essência não te tira o ar?!

Nisso eu penso: quem foi o imbecil que escreveu a fábula da Cigarra e da Formiga? Que tipo de sujeitinho desalmado... Que espírito de porco!
E o pior: assim como ouvimos atentos, repassamos que a Cigarra é uma preguiçosa, que não se preparou para o inverno e, por tal, merecia a fome e o frio...

Mas quem se perguntou quanto o canto da Cigarra fazia o fardo da Formiga menos pesado?
Temo que quase ninguém...

paralelepídedos

Rúbia Zanettini

amiga e poetiza

Havia ali, na simplicidade 
Finalmente trazida
Pela vida
Que para muitos era apenas uma morada
Para mim hoje... Nostalgia!
Havia ali, uma certa felicidade triste...
Enfileiradas, aquelas casas em perfeita simetria...
Em ruas de paralelepípedos...
Sábias, amigas antigas.
Brancas, desbotadas , janelas azul
De um azul antigo
Todas... imóveis!
Imóveis que já foram de tantos...
De tantos que já não são!
O silêncio... O vento morno familiar...
Pode, se quiser ouvir...
As vozes, que já se sentaram um dia...
Em banquinhos improvisados, de madeira de caixas de feiras...
Os homens sentados, a falar sem nada dizer, vindos das lidas...
O som daquele velho borburinho que vizinhos faziam...
As peladas, dos meninos, descalços e franzinos...
E das meninas nas guias, que da assanhada inocência, assistiam!
As mulheres já sábias à janela, vindas com matriarquia... "Venham, tá servido!"
E por fim...
De novo... SILÊNCIO nos paralelepídedos!
Apenas se fechar os olhos...
Ouve-se do silêncio a história de tantas vidas...
De um tempo...que nem mais é tempo...